Paloma, uma mulher de fé

Paloma (Kika Sena) trabalha colhendo mamão numa plantação no sertão de Pernambuco e está economizando dinheiro para realizar o seu maior sonho: casar de vestido branco, véu e grinalda na Igreja Católica, com seu namorado Zé (Ridson Reis). Um sonho que parece singelo, mas que esbarra num obstáculo: o padre da cidade afirma não ter autorização da Igreja para realizar o casamento de uma travesti.

Dirigido por Marcelo Gomes (Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, 2017), que também assina o roteiro ao lado de Armando Praça e Gustavo Campos, Paloma ficcionaliza uma história real que o diretor leu num jornal. Como protagonista, Kika Sena, a arte-educadora, diretora teatral, atriz, poeta e performer que com um talento arrebatador nos oferece uma das personagens mais encantadoras e inesquecíveis do cinema brasileiro contemporâneo. 

O filme foi considerado Melhor Longa da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio de 2022 e também levou os troféus de Melhor Atriz, para Kika Sena, e o Prêmio Félix, concedido a obras com temática LGBTQIA+.


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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA LATINA

PALOMA 

No caso original, ocorrido em 2009 e contado pelos jornais de maneira bastante questionável, Paloma, uma mulher trans, e José Ricardo, um homem cis, se casam no interior de Pernambuco. O pedido veio do noivo, para realizar o sonho de infância da companheira. Depois de celebrada a cerimônia, o padre diz ter sido enganado por ignorar que estava casando “dois homens”.

“Paloma”/ Divulgação

No cinema, Gomes reconta esse caso adicionando camadas muito bem-vindas. Paloma, a do filme, tem o mesmo sonho da Paloma real, mas agora, além do sonho do casamento, há todo o universo de uma mulher de natureza doce e ingênua. Inserida num contexto de vulnerabilidades, sim, mas também envolvida por uma rede de afetos, pela certeza de quem é, pela bonita relação que mantém com a religiosidade e com a fé.

Aqui a história não gira em torno de um padre “enganado” ou de uma comunidade atônita diante de um “casamento improvável”. O centro da trama é Paloma, seu cotidiano e sua subjetividade. Talvez por isso o mais bonito do filme seja observar Kika Sena interpretando essa presença no mundo, como os outros personagens orbitam ao redor dela, como se dão suas relações.

E se por um lado Paloma é vítima várias vezes e em diferentes graus do conservadorismo que escala para o ódio e para a violência, por outro ela nunca abre mão de ser protagonista de sua história; ela não se permite ferir por olhares alheios.

MÃE, NAMORADA, AMIGA, CATÓLICA, TRABALHADORA, SONHADORA, TRAVESTI

Sem ignorar a realidade do país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, o filme defende acima de tudo o direito de sonhar de sua protagonista. Essa mulher que já vive em família com sua rede de apoio e dentro de casa, com o namorado Zé e com sua filha de 7 anos, Jenifer (Anita de Souza Macedo), mas que insiste em legitimar esse relacionamento amoroso diante de Deus e frente a uma sociedade que finge tolerá-los desde que “não chamem atenção”.

Divulgação

Mãe afetuosa e dedicada, namorada apaixonada, amiga presente, uma mulher de fé inabalável, sonhadora convicta, um corpo marginalizado por ser travesti, uma das tantas trabalhadoras precarizadas dos interiores deste país, submetida a patrões abusivos. Alguém que ama, se ilude, se desespera, erra, sente raiva, sente afeto, sente desejo… Uma mulher simples e decidida. São muitas as facetas dessa personagem que Marcelo Gomes se empenha em retratar com tanto esmero e tato. E por isso é impossível estereotipá-la. Por isso é impossível esquecê-la.

Conforme a projeção avança, portanto, exercitamos compreender Paloma, mesmo que não compartilhemos de sua fé. Mesmo que por alguns segundos cheguemos a pensar que seu sonho beira a obsessão, que ela se submete a mais do que deveria para levar o namorado ao altar, que lutar tanto para ser reconhecida por uma instituição que a rechaça é tolice. Mesmo assim é impossível julgá-la ou deixar de se afeiçoar a ela e ao seu otimismo. 

Imprimindo toda a firmeza de Paloma e agigantando a personagem ao emprestar a ela cativantes sorrisos, Kika Sena nos comove com sua arte. Grande feito também de Marcelo Gomes, que mais uma vez nos apresenta um filme empenhado em entender e retratar as nuances das relações da gente deste país com a comunidade, os afetos, o espaço, o tempo e o trabalho.

Ficha Técnica:

Direção: Marcelo Gomes

Duração: 1h44

País: Brasil

Ano: 2022

Elenco: Kika Sena, Ridson Reis, Zé Maria, Suzy Lopes, Ana Marinho, Samya de Lavor, Wescla Vasconcellos, Patrícia Dawson, Nash Laila, Márcio Flecher, Buda Lira, Anita de Souza Macedo

Gênero: Drama

Distribuição: Pandora Filmes

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