Alice Júnior: o coming-of-age que faltava no cinema nacional

Popular e especial. Selecionado para a mostra Geração do Festival de Berlim deste ano e lançado em streaming devido à pandemia do novo coronavírus, o brasileiro Alice Júnior é do tipo de filme que sabe bem como usar fórmulas a seu favor. 

‘Alice Júnior’/ Divulgação

A trama, dirigida por Gil Baroni e roteirizada por Luiz Bertazzo, tem como personagem-título uma adolescente carismática, mimada, estilosa e  youtuber, acostumada a estar rodeada de amigos e aclamada por seus seguidores.

Prestes a dar seu primeiro beijo, Alice descobre que, por conta do emprego do pai, Jean (Emmanuel Rosset), ela precisará se mudar do Recife para o Paraná. O destino é a fictícia Araucária do Sul, uma pequena cidade conservadora.

Uma vez no Paraná, com os planos interrompidos, sem amigos, quase sem sinal de internet e matriculada em uma rígida escola católica, a única da região, a jovem é atravessada por dificuldades de adaptação comuns a qualquer adolescente deslocado. Mas não só isso: Alice é uma garota transexual (interpretada pela ótima Anne Celestino, também trans), e a mudança do nordeste para o sul do país exigirá da protagonista habilidade para contornar os preconceitos do dia a dia e coragem para não desistir de ser quem é.

ENCONTRAR-SE NO MUNDO 

“Existem mais corpos do que você imagina, mulher com pinto e homem com vagina”. Grafitada num muro de Recife, a frase que abre o filme dá indícios de que a obra discutirá a marginalização dos corpos no Brasil.

Imagem: divulgação

Aqui, no país que mais mata transexuais no mundo, a realidade de Alice é exceção. Mesmo assim, protegida pelo amor e pela boa condição financeira de Jean, a jovem não deixa de ser afetada pela mudança de região. Em sua terra natal, afinal, ela já tinha ao seu redor quem a acolhesse. Frente ao famigerado reacionarismo sulista, ainda que sob os cuidados do pai, a personagem é arrastada para o lugar impiedoso do não pertencimento.

Assim, a chegada de Alice ao colégio católico revela pouco a pouco, e sempre a partir do microcosmo adolescente, as configurações de poder daquela comunidade. Nesse novo lugar, suas roupas coloridas e cintilantes não cabem, seu nome social não é respeitado, seu sotaque é motivo de deboche dos colegas e saber qual banheiro da escola usar torna-se um dilema. Alice é o outro, a novidade exótica que rapidamente vira alvo de reações misóginas e lgbtfóbicas.

Em contrapartida, a presença da jovem também é motor de transformações. Existem, claro, os colegas dispostos a brigar pela manutenção de seus micropoderes autoritários e bárbaros. Por outro lado, existem aqueles que passam a entender a presença de Alice como um sinal de que  modelos de sociedade que não acolhem todos os corpos, identidades e experiências são insustentáveis – ou deveriam ser.

O FILME ADOLESCENTE QUE FALTAVA

Na forma, Alice Júnior apresenta-se como típico filme adolescente sobre amadurecer e redescobrir-se (coming-of-age). A receita parece simples: uma fórmula comercial, sustentada pelo arco da adolescente urbana e descolada, que se comunica na internet por memes da cantora Gretchen e que, do dia para a noite, é jogada num rincão do país, sem redes sociais e sem amigos.

Imagem: divulgação

Em essência, porém, o longa representa um marco para o cinema nacional. E o que o faz tão especial, para além do importante protagonismo de Anne Celestino ou dos retratos de Brasil delineados de acordo com os contextos dos personagens secundários,é a precisão do roteiro em ser realista e popular, equilibrando afeto e violência com cuidado.

Intolerância sempre se manifesta como agressão. Sempre. E embora seja privilegiada em muitos aspectos, Alice não escapa de ser atingida pelo que há de pior nos comportamentos conservadores do brasileiro – em suas mais diferentes manifestações. Mas para cada cena difícil, Alice Júnior tem uma outra preparada para mostrar o valor do caminho do afeto. 

Nesse sentido, talvez a mensagem mais  relevante do filme seja: Alices precisam se adaptar para caber em Araucárias do Sul ou Araucárias do Sul é que devem se adaptar para acolher Alices? Único, fascinante, emocionante, descontraído na medida exata e certeiro em todos os seus apontamentos, Alice Júnior deve agradar aos mais diversos tipos de espectador. Produção mais que necessária para tempos de brutalidade em voga.

Leia também: “Indianara: ser mulher e ativista trans no Brasil”

Trailer:

(Fonte: Olhar/ YouTube)

Ficha Técnica:

Direção: Gil Baroni

Duração: 1h27

País: Brasil

Ano: 2020

Elenco: Anne Celestino, Emmanuel Rosset, Surya Amitrano, Matheus Moura, Thaís Schier

Gênero: Comédia

Distribuição: Olhar Distribuição

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta