Crítica: It – A Coisa

Anos 80, grupo de garotos losers, crianças desaparecidas e um palhaço demoníaco que se transforma de acordo com o medo de sua presa. Misture tudo isso em um roteiro inspirado em uma das obras mais famosas de Stephen King e obtenha It: A Coisa. O mais novo filme de Andrés Muschietti aproveita a onda nostálgica de enredos habituados na década dos walkmans e walkie-talkies para oferecer um formato incomum de terror.

O palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) está à solta. Não há lugar à salvo na cidade norte-americana de Derry, se você for uma criança. Não há adulto que o proteja, e seu pior medo será também seu pior inimigo. Empenhados em derrotar “a coisa” do mal, um grupo de sete amigos, autodenominado Clube dos Perdedores, inicia uma investigação perigosa pelas origem e motivações do palhaço – principalmente depois que o irmão caçula do jovem Bill (Jaeden Lieberher) desaparece.

O aproveitamento do revival da década de 80 é tão oportuno que a produção do longa-metragem (coincidentemente?) escalou Finn Wolfhard (o Mike, da série Stranger Things, da Netflix) para viver um dos Perdedores. Mas, atenção, pais e irmãos mais velhos: esse filme não é recomendado para crianças. Fazendo uso da técnica cinematográfica denominada jump scare – uma mudança abrupta na imagem com a intenção de assustar o espectador –, It é realmente assombroso e se concentra no subgênero gore dos filmes de terror. Então, sim, tem bastante sangue, mutilações e porradas.

Ainda assim, o diferencial do longa consiste no equilíbrio entre o horror e a comédia, auxiliando o ritmo fluido. As sequências de Pennywise “aprontando” são, em determinada altura, subsequentes a diálogos divertidos e irônicos dos meninos. E, coerentemente à idade desses personagens, dilemas adolescentes, como o primeiro amor e bullying, trazem uma profundidade maior à história.

Imagem: divulgação

Aos olhos atentos, no entanto, alguns problemas de roteiro impedem que a experiência de assistir ao filme seja mais proveitosa. Os clichês de longas de terror fazem uma aparição aqui e acolá, quando um personagem, nos 45 do segundo tempo, resolve perseguir sozinho, túnel escuro adentro, a personificação de seu medo. Ou, também, quando o desfecho para uma grande dificuldade culmina na cena clássica de sedução do mocinho pelo monstro que, transformado em um ente querido do primeiro, acaba sendo derrotado.

Um erro bobo de continuidade envolvendo a tampa de uma caneta, durante a primeira interação entre os Perdedores Beverly (Sophia Lillis) e Ben (Jeremy Rey Taylor), não impede o espectador de se entreter com a cena em questão, mas acaba, sim, desvalorizando a montagem. Além disso, o filme apresenta um certo excesso de subtramas. Há alguns personagens, por exemplo, que aparecem apenas uma ou duas vezes, não acrescentando qualquer coisa na história. A substituição dessas cenas por mais momentos de comunicação entre os Perdedores poderia ter sido uma boa opção, assim como por um maior equilíbrio no tempo de tela de cada um.

No geral, It: A Coisa tem potencial para agradar os amantes de John Carpenter e demais obras do horror dos anos 80. O filme é divertido, assustador e vale a pena ser visto se você curte uma dose moderada de jump scare. Afinal, assim como a técnica não é parâmetro de qualidade, também não é de defeito. Longas como It, que contêm humor, e A Bruxa (2015) e O Babadook (2014), que exploram o terror psicológico em suas narrativas, fazem surgir um crescente interesse por originalidade nos filmes do gênero. Aguardemos os próximos anos com a já anunciada continuação de It e, possivelmente, modificações significativas nas demais obras de terror.

*Texto originalmente publicado em 28/09/17

 

Ficha técnica

Ano: 2017

Duração: 2h15

Direção: Andrés Muschietti

Elenco: Bill Skarsgård, Finn Wolfhard, Jaeden Lieberher, Sophia Lillis, Jack Dylan Grazer

Distribuidora: Warner Bros. Entertainment

País: EUA

 

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