La Casa de Papel (Parte 3) e a volta dos que não foram

La Casa de Papel poderia perfeitamente ter chegado ao fim com o último episódio da parte dois, mas o estrondoso e inesperado sucesso da série espanhola fez a Netflix desafiar o criador Álex Pina a encontrar um bom motivo para dar sequência às aventuras dos assaltantes mais queridos do entretenimento do momento. Estreou então, no último dia 19, a parte 3 da produção.

O motivo encontrado para justificar essa continuação tem caráter emocional e dá o tom da nova fase: com o tempo, afetos foram criados e o grupo de assaltantes transformou-se em família. Agora um deles está em perigo e precisa de ajuda.

Vemos, logo de início, que depois do exitoso e ousado atraco à Casa da Moeda, o grupo, famoso e procurado pela polícia, precisou seguir normas de segurança definidas pelo Professor (Álvaro Morte). Para desfrutar de seus milhões, dividiram-se em duplas e cada uma foi enviada para um canto do mundo.

Tudo muda, no entanto, quando depois de três anos Rio (Miguel Herrán) se descuida e é capturado pelas autoridades. Para tentar salvá-lo, Professor se vê obrigado a reunir o grupo e planejar algo mais ambicioso: dessa vez eles não pretendem imprimir o próprio dinheiro, mas, sim, roubar o ouro nacional.

‘La Casa de Papel parte 3’ / Divulgação

PERSONAGENS

Em termos de forma, não há nenhuma grande novidade nos novos oito episódios. Há, na verdade, uma repetição: posta a motivação inicial, o grupo se junta e executa um novo assalto; tão ambicioso quanto o anterior. Enquanto isso, flashbacks explicam como funciona o plano e o jogo de policia e ladrão se inicia. 

As diferenças destacam-se nos detalhes. Novos personagens são introduzidos e os conflitos da atual formação do grupo são explorados a partir da personalidade de cada um dos indivíduos. Assim, laços são aprofundados e outras tensões criadas.

Os casais controversos formados ao final da segunda temporada, por exemplo, enfrentam conflitos inevitáveis. Mónica (Esther Acebo) e Denver (Jaime Lorente) e Raquel (Itziar Ituño) e Professor pertencem a relacionamentos disfuncionais. As duas mulheres se envolveram com homens que estavam em posição completamente abusiva – e a série parece saber disso;  tanto é que Mônica recebe o apelido de Estocolmo, em alusão a síndrome de Estocolmo, estado psicológico no qual uma pessoa, submetida por algum tempo a intimidações, desenvolve afeto pelo agressor. 

Dos problemas pessoais ou de relacionamento (românticos ou não) a trama tira material para falar de assuntos como machismo, paternidade e maternidade. 

La Casa de Papel depende fundamentalmente do carisma e da diversidade de personalidade de seus personagens. Sem esses dois aspectos o desenvolvimento do assalto não seria tão envolvente. A série acerta, portanto, ao assumir ser um novelão, uma narrativa que ultrapassa as cenas de ação e jogos mentais para aprofundar o drama das relações. Daí a importância de renovar personagens – trazendo outros ou abordando novas facetas dos já conhecidos – e buscar novos conjuntos de questões.

‘La Casa de Papel parte 3’ / Divulgação

APELO POPULAR

O carisma dos personagens certamente é essencial para fazer a série acontecer como êxito estrondoso e marco da cultura pop espanhola. Mas, para além disso e dos apelos visuais (cenas dinâmicas, ritmadas freneticamente), musicais (nessa terceira temporada, o inusitado hit Bella Ciao é empregado nas situações mais inesperadas) e inerentes ao gênero policial (perseguições, raciocínios rápidos), La Casa de Papel joga o tempo todo com a participação do público, valendo-se, inclusive, do próprio sucesso. 

Dessa vez, a interação com a audiência é explícita. A série celebra o apoio que recebeu das pessoas que pediram por mais temporadas, porém não de forma acrítica. Ao mesmo tempo em que as demandas dos assinantes da Netflix fizeram a continuação acontecer, o povo nas ruas da ficção, protestando a favor de Professor e sua turma, possibilitaram o início do segundo assalto. É uma ponte sutil entre ficção e realidade, mas que diz muito sobre os rumos da produção.

O sentimento de insatisfação popular que toma os mais diversos países e assume as mais diversas formas passa pelo sucesso e pelo enredo de La Casa de Papel. Por um lado, pessoas sentem-se representadas pelo empoderamento feminino de Nairobi (Alba Flores). Por outro, há completa despolitização.

Professor sempre insiste que eles são a resistência; mas resistência ao quê? Os assaltantes desejam apenas resgatar um amigo, roubar o ouro e de quebra vencer a polícia. Via espetáculo, tornam-se heróis imperfeitos dentro e fora da série. Conseguem gerar identificação, é verdade. Contudo, passam longe da luta por justiça social.

“Estamos num momento de ceticismo com o capitalismo, com os bancos centrais, o governo e até com qualquer ideia de revolução”, comentou Álex Pina ao site português Observador. De fato, a série elabora uma miscelânea de todos esses ceticismos e reproduz a crise política global.

Imagem: divulgação

UMA TEMPORADA MAIS ENÉRGICA

Parecia impossível, mas a nova temporada de La Casa de Papel consegue ser ainda mais emocionante do que as anteriores. Não falta drama e perrengue. Não há um momento de calmaria. Os oito episódios foram feitos para viabilizar maratonas, mexer com todos os tipos de sentimentos do espectador e criar uma onda de hype, sem dúvidas. 

Tudo isso é justificado pelo caos que assola a mente do  Professor. Sem tempo para planejar o resgate de Rio com perfeição, ele apela para um plano que não lhe é tão familiar e precisa, por diversas vezes, contar com a sorte. Assim, o personagem que antes tinha tudo sob controle e garantia alguma linearidade à trama, agora encontra-se quase tão vulnerável quanto os demais.

Como resultado, abre-se espaço para mais ação, personagens mulheres mais afiadas e para tocar em outros temas – mídia, espetáculo, democracias que performam civilidade enquanto torturam gente quando é conveniente, relacionamentos homossexuais.

Ainda não sabemos como termina o segundo assalto do pessoal do macacão vermelho e nem se outros planos mirabolantes virão, mas uma coisa é certa: La Casa de Papel garante com louvor seu posto de galinha dos ovos de ouro da Netflix.

Trailer: 
(Fonte: Netflix Brasil/ YouTube)

Ficha técnica – Parte 3

Criação: Álex Pina

País: Espanha

Ano: 2019

Elenco: Álvaro Morte, Úrsula Corberó, Alba Flores, Miguel Herrán

Gênero: Drama, Ação

Distribuição: Netflix

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