La Llorona: memória e realismo mágico

Conta a tradição oral mexicana que, há muito tempo, uma mulher abandonada pelo marido afogou os filhos e depois tirou a própria vida. Desde então, arrependida, sua alma vaga por rios, povoados e cidades durante a noite, sempre chorando e em busca das crianças. A fantasma ficou popularmente conhecida como La Llorona (a chorona), e sua história percorreu toda a América.

Em 2019, duas adaptações cinematográficas da tal lenda chegaram ao Brasil. Em abril foi a vez da hollywoodiana A Maldição da Chorona, longa-metragem de terror que usa a assombração mexicana apenas como premissa para desenvolver seu enredo sobre uma entidade mulher chorosa que persegue uma mãe viúva e seus filhos. Aqui, o objetivo da trama é proporcionar alguns sustos ao espectador. 

‘La Llorona’/ Divulgação

Já em outubro, o público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pôde assistir à La Llorona, filme guatemalteco de Jayro Bustamante que ganhou o prêmio de direção da seção Giornate degli Autori no Festival de Veneza deste ano.

Nele, acompanhamos uma trama, envolta em realismo mágico, que se dedica a resgatar memórias sobre os genocídios indígenas praticados por militares na Guatemala do início dos anos 1980. 

Naquela época, generais autoritários enviaram tropas às terras indígenas sob o pretexto de estarem buscando guerrilheiros e seus aliados. A invasão, entretanto, tinha outro objetivo: expropriar a população campesina que vivia próxima de zonas de petróleo. Para tanto, militares foram autorizados a destruir comunidades inteiras, torturando estuprando e matando.

La Llorona é ambientado 30 anos depois de tais eventos, quando o principal general responsável pela matança dos povos originários, Enrique Monteverde (Julio Díaz), enfrenta um processo criminal pelas barbaridades que cometera. Absolvido das acusações após mover algumas peças dos jogos de poder do país, o homem começa a ouvir um choro de mulher em sua casa. 

NA CASA DO GENERAL

Há algo de bastante original na escolha de perspectiva narrativa adotada por Bustamante, que assina o roteiro com Lisandro Sánchez:  grande parte da ação do filme é situada dentro da mansão do general Monteverde.

Dessa forma, acompanhados os trâmites e reviravoltas do processo de julgamento do general observando sua rotina familiar e o funcionamento de sua casa. À medida que novos depoimentos e evidências são trazidos à tona, por exemplo, a filha do militar, Natalia (Sabrina De La Hoz), e a esposa, Carmen (Margarita Kenéfic), passam a ser obrigadas a encarar o fato de  que “o homem da família” possui sérias dívidas com o país.  

Imagem: divulgação

Do lado de fora dos portões, uma multidão de manifestantes e familiares de mortos e desaparecidos se organiza em protestos contínuos. Ali, o povo grita “genocida!” e “assassino!” e realiza homenagens às vítimas do genocídio étnico. Observamos os manifestantes sob os mesmos ângulos que os observa a família Monteverde, e sabemos, portanto, como toda a movimentação popular incomoda a normalidade do cotidiano de gente tão profundamente acostumada e confortável em relação aos seus privilégios. 

Ao mesmo tempo, e do lado de dentro, vemos como a chegada de Alma (María Mercedes Coroy), uma nova empregada doméstica da casa, estimula a exposição de segredos familiares.

Personagem fictício, Enrique Monteverde representa Efraín Ríos Montt, ditador militar que governou a Guatemala entre 1982 e 1983, após um golpe de Estado. Montt foi julgado e considerado culpado por crimes contra a humanidade em 2013, mas a sentença acabou anulada poucos dias depois. Morreu em 2018, impune, aos 91 anos de idade. 

AS MULHERES DE LA LLORONA

Embora a figura do ditador seja relevante para entender o massacre indígena na Guatemala, ela surpreendentemente não é o maior objeto de interesse de La Llorona. Tanto o julgamento de Enrique Monteverde como suas noites assombradas pela llorona servem como fio condutor de uma narrativa que privilegia personagens mulheres. 

Enquanto Monteverde acerta – ou não – suas contas com o povo, a justiça e as instituições, somos levados a acompanhar as reações das mulheres em seu entorno. Dessa forma, as contradições sociais do país são postas em tela sempre a partir das diferenças de classes e etnias das personagens femininas. 

Imagem: divulgação

Natalia, a filha do general, é quem mais parece entrar em dilemas éticos sobre o passado do pai. Carmen, depois de uma vida de subserviência marital, segue tentando justificar as atitudes de Enrique. As empregadas domésticas, todas indígenas, reagem cada uma sob um contexto ao histórico de violência do patrão. E o sobrenatural, utilizado em doses certeiras ao longo de todo o desenvolvimento da trama, também evoca o feminino de uma entidade que deseja acertar contas com aqueles que mataram seus filhos. 

Até mesmo durante as cenas de julgamento do general as testemunhas são mulheres vítimas da violência militar. É assim, aliás,  que o diretor demonstra levar em enorme consideração o fato de que as mulheres indígenas são o pilar de sustentação, luta e resistência de suas comunidades. 

Combinando, então,  fatos históricos com elementos sobrenaturais, e evocando simbolismos de um realismo fantástico profundamente latino-americano, La Llorona resgata memória manifestando-se com potência e essência contra a impunidade dos genocidas do continente, assassinos de ancestralidades e da Terra.

Por último, é importante dizer que a Guatemala não é um país com tradição de cinema, mas La Llorona , sem dúvidas, consagrou-se como uma das gratas surpresas da programação da Mostra SP 2019. 

*Este texto faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Leia também: José, o filme guatemalteco que ganhou o Leão Queer no Festival de Veneza

Ficha Técnica:

Direção: Jayro Bustamante

Duração: 1h33

País: Guatemala, França

Ano: 2019

Elenco: María Mercedes Coroy, Sabrina De La Hoz, Julio Díaz Margarita Kénefic

Gênero: Drama, Fantasia

Distribuição: ainda sem distribuidora no Brasil

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