Reality Z, da Netflix, imprime roupagem brasileira à barbárie do espetáculo

ATENÇÃO, este texto contém spoilers

Prepara-se para ver muitas entranhas arrancadas de corpos e muito sangue jorrando na tela. Reality Z, série brasileira original Netflix inspirada na minissérie inglesa Dead Set (2008), do mesmo criador de Black Mirror, abraça deliberadamente o estilo gore para desenvolver um apocalipse zumbi carioca.

‘Reality Z’/ Divulgação

Lançada na última quarta-feira (10), sob o comando do diretor Cláudio Torres (filho de Fernanda Montenegro), a produção se comporta como um remake de Dead Set até o quinto episódio. Nessa introdução de universo, acrescida com elementos brasileiros, o espectador conhece o reality show Olimpo, programa no qual vários participantes são confinados numa mesma casa, vigiados 24 horas por dia, chamados por nomes de deuses e colocados para disputar popularidade diante do público. Toda semana um deles é o “sacrificado”, e o que mais agradar a audiência leva o prêmio.

Quando um surto zumbi toma o Rio de Janeiro, espalhando morte até mesmo dentro das dependências da emissora que transmite Olimpo, em pleno dia de eliminação do reality,  o estúdio do programa se transforma em um dos únicos lugares seguros da cidade. A partir de então, os sobreviventes vão precisar se organizar para não serem atacados.

Mais bem iluminada que a original, embora também mais exagerada no uso de CGI – e por isso às vezes menos verossímil-, a série conta com a participação especial de Sabrina Sato (ex-BBB) no papel de Divina, apresentadora do reality.

ROUPAGEM BRASILEIRA AO APOCALIPSE ZUMBI DE SEMPRE

É impossível dizer que Reality Z tem algo de novo a acrescentar ao universo dos mortos-vivos. Dead Set já não tinha. Por isso, vale pontuar que os personagens são bastante limitados no quesito nuances de personalidade, performando, consequentemente, inúmeros clichês brasileiros. Da mesma forma, a saga dos sobreviventes que precisam de recursos para se manter e de habilidade para lidar com os conflitos coletivos é típica de produções do gênero. Assim, os desafios dos grupos que lutam para continuar vivos acabam tendo mais a ver com a megalomania humana do que com a fome de criaturas semi-mortas.

Imagem: divulgação

Mas apesar de seu esquematismo previsível, a série certamente conversa com algo que todos nós já ponderamos – principalmente no início deste ano, quando o Big Brother Brasil 20 continuou no ar mesmo com uma pandemia de dimensões globais alterando o mundo que conhecíamos: como seria se tudo acabasse e os participantes de reality shows continuassem confinados, sem noção do caos exterior? Em outras palavras, qual o limite do espetáculo televisivo? 

UM ENREDO, DOIS MOMENTOS

Nesse sentido, podemos analisar Reality Z também por seu viés crítico, o que nos leva a considerar que os 10 episódios da temporada se dividem em dois momentos. Na primeira metade, a produção brasileira segue com fidelidade a trama e o jeito de filmar de Dead Set. Prevalece, portanto, a crítica da obra original sobre a zumbificação do espectador obcecado pelo espetáculo da vida alheia.

Imagem: Divulgação

Na segunda etapa, então caminhando com as próprias pernas, a série aposta em explorar as tensões do tecido social do país a partir do momento em que diferentes sujeitos sociais são forçados a, juntos, tentarem construir um novo modo de vida. 

Do ponto de vista narrativo, o segundo momento soa absolutamente desnecessário. Isso porque repete-se o formato do primeiro, levando inclusive ao mesmo tipo de final. É como se Reality Z percorresse duas vezes a mesma jornada, com começo, meio e fim. Por outro lado, é compreensível que a equipe criativa da série tenha se dedicado a utilizar a segunda parte para aprofundar minimamente a caracterização da versão brasileira; aproximando da audiência local uma série internacional, que poderia ser ambientada em qualquer lugar.

OS RITUAIS DE SACRIFÍCIO 

Existe certo nível de compromisso criativo da série em relação à mensagem a ser transmitida. O toque abrasileirado nas contradições que vemos em tela, aliás, tem lá sua pertinência no meio de uma trama que não faz mais do que reproduzir conflitos recorrentes em filmes de zumbi.  

No livro “Rituais de Sofrimento”, publicado em 2013, a doutora pela USP Silvia Viana analisa a violência da concorrência nos reality shows. 

“Não lidamos aqui com um ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador, pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento’”, escreve Viana.

Imagem: divulgação

Essa lógica da concorrência brutal espetacularizada num contexto brasileiro, criticada na primeira etapa da série e chamada pela própria produção do Olimpo de “ritual de sacrifício”, é arrastada para a segunda fase da obra por Cláudio Torres. 

Assim, do sexto episódio em diante observamos o desenrolar das interações entre pessoas que, como grupo, foram incapazes de superar valores egoístas de dominação em prol da cooperação.  A série não chega a imaginar novos mundos, mas, pessimista sobre a atualidade, imagina como se daria o processo de uma tentativa de transição pautada pela repetição insistente e ignorante da racionalidade individualista do pré-apocalipse; um processo que inevitavelmente arrastaria todos à barbárie.

Graficamente apelativa e bastante dinâmica no sentido da ação e do pouco apego aos personagens, Reality Z evita desgastar personalidades que não têm muita complexidade a oferecer priorizando o conjunto das relações e as críticas que figuram em seu plano de fundo. Paradoxalmente, porém, tais críticas são contrariadas em si mesmas, já que a série não passa de um produto comercial que recorre à espetacularização de violência gráfica para impressionar e gerar entretenimento. 

Trailer:
(Fonte: Netflix Brasil/ YouTube)

Leia também: O Escolhido (2ª Temporada)

Ficha Técnica:

Criação: Cláudio Torres

País: Brasil

Ano: 2020

Elenco: Ana Hartmann; Guilherme Weber; Ravel Andrade; Carla Ribas; Emílio de Mello; Luellem de Castro; Pierre Baitelli; João Pedro Zappa; Sabrina Sato; Hanna Romanazzi; Leandro Daniel; Gabriel Canella; Natália Rosa; Wallie Ruy; Arlinda Di Baio; Jesus Luz.

Gênero: Terror

Distribuição: Netflix

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