Papicha: a moda como expressão política

Nedjma (Lyna Khoudri), protagonista de Papicha, longa-metragem escolhido como representante da Argélia para o Oscar 2020, é uma estudante universitária apaixonada por moda. Para ganhar algum dinheiro, a jovem desenha, costura e depois vende roupas em banheiros de baladas. Ela sonha em ser uma grande estilista, mas a Argélia dos anos 1990, tomada pela Guerra Civil, pode minar seus planos para o futuro.

‘Papicha’/ Divulgação

Conforme as tensões políticas se aprofundam no país, forças conservadoras do fundamentalismo religioso emergem, determinando novos padrões de comportamento e mirando especialmente nos costumes que consideram liberais demais – a Argélia foi colônia da França, logo, o conservadorismo nacionalista se coloca contrário ao não uso do hijab e ao ensino nas universidades que oferecem aulas em francês, por exemplo.

As mulheres e os educadores, claro, são os primeiros alvos de repressões. E Nedjma, que antes sentia-se livre para aprender, sonhar, agir e se vestir como bem entendesse, pouco a pouco começa a perceber uma crescente de hostilidade infiltrando-se nos menores detalhes do cotidiano e dos relacionamentos interpessoais.

Recusando-se a aceitar que o contexto político e as mudanças de mentalidade coletiva sobre o que mulheres devem ou não fazer interfiram em seu jeito de levar a vida, a personagem decide manifestar seu posicionamento contrário às ameaças conservadoras organizando um desfile de moda alegre e criativo com as amigas da universidade. 

O longa adapta livremente situações reais. 

A PERFORMANCE DO FEMININO

Há garotas vestidas de todas as maneiras em Papicha. A protagonista vive de jeans, tênis e camiseta, enquanto uma de suas melhores amigas é adepta do véu. A moda é tratada pela diretora Mounia Meddour como linguagem, e as roupas são códigos de expressão.

Nedjma (Lyna Khoudri)/ Divulgação

Quanto mais o “jeito ocidental” de se vestir soa transgressor, mais Nedjma faz questão de usar seus biquínis, calças e camisetas – signos que não passam de construções sociais sujeitas a interpretações, e que, no contexto deste filme, simbolizam subversão.  

Em muitos países a maquiagem, as unhas pintadas e os cabelos longos e soltos são elementos compulsórios de feminilidade. Na Argélia dos anos 1990, porém, esse tipo de código passa a ser entendido como vulgaridade de mulheres que abandonaram as tradições locais.

Meddour se preocupa, então, em explorar a moda e o performar feminilidade como pontos de partida para tratar de expressões de criatividade artística e rebeldia. A diretora não pretende estabelecer certo e errado sobre o véu e as calças jeans. Batalhas ideológicas delirantes entre estereótipos de roupas de mulheres são impostas pela necessidade de justificar estados de controle. Por isso,  diante de um contexto amplo de opressão e censura, é na trincheira da moda que protagonista de Papicha decide lutar.

Ali, entre os muros da universidade, vendo tudo lá fora mudar enquanto planejam um desfile, as jovens mulheres do filme tentam preservar algum lugar seguro de autonomia.

SORORIDADE E RESISTÊNCIA

A grande qualidade de Papicha, sem dúvidas, é saber como atravessar a gradativa ascensão do conservadorismo por todos os âmbitos da vida de Nedjma.

Imagem: divulgação

Conforme as disputas simbólicas se transferem para a realidade material do dia a dia, a jovem sofre golpes cada vez maiores, mas também sente ainda mais vontade de lutar. Combativa, Nedjma se recusa a aceitar os “generosos conselhos” dos homens ao seu redor sobre abandonar o país ou aquilo que acredita para não ser perseguida por grupos extremistas. Consequentemente, seus simples permanecer e contrastar ganham significados importantes. 

A Guerra Civil delineia contornos estarrecedores para a vida social argelina. As primeiras e sorrateiras manifestações do autoritarismo acabam culminando no momento de clímax do longa, quando o terror se instaura em sua maior intensidade. A partir daí, as personagens aprendem na prática quando avançar, quando recuar ou quando ser resilientes.

O arco de desenvolvimento do grupo, em certa medida, torna-se tão relevante como o da protagonista, já que é do apoio que uma dá à outra que todas encontram forças para recomeçar uma e outra vez. Resistir, afinal, é como um teste de paciência, solidariedade e estratégia.

É bom que se diga que Papicha não é um filme fácil. A narrativa cresce, e antes de desembocar num cenário minimamente esperançoso, alcança cenários de extrema violência. É bastante assustador perceber que estamos diante de um filme absolutamente contemporâneo. E mais assustadora ainda é normalidade com a qual aceitamos a infiltração da barbárie em nosso tecido social. 

Véus e jeans, aqui, operam apenas como enunciado de uma história universal sobre ser mulher num mundo cujas regras são impostas de acordo com interesses e poderes patriarcais.

*Este texto faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Leia também: “La Llorona: memória e realismo mágico”

Trailer:
(Fonte: Pandora Filmes/ YouTube)

Ficha Técnica:

Direção: Mounia Meddour

Duração: 1h46

País: França, Argélia, Bélgica, Catar

Ano: 2019

Elenco: Lyna Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda

Gênero: Drama

Distribuição: Pandora Filmes 

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