Retablo: tradição precisa ser sinônimo de conservadorismo?

Vem da região de  Ayacucho o filme Retablo, representante do Peru no Oscar 2020. Filmado todo em idioma quéchua, a obra marca a estreia de Álvaro Delgado-Aparício na direção de longas-metragens e propõe questionamentos bastante contemporâneos sobre tradição, conservadorismo e masculinidade.

‘Retablo’/ Divulgação

Na trama, Segundo (Julio Bejar Roca), um garoto de 14 anos, vive com a família numa pequena comunidade andina.  A mãe, Anatólia (Magaly Solier), cuida da casa e da plantação familiar. Já o pai, Noé (Amiel Cayo), é um prestigiado artista local que trabalha confeccionando e vendendo retábulos. 

Os retábulos ayacuchanos (retablos, em espanhol), que dão título ao filme, são caixas portáteis de recordações. Dentro delas, bonequinhos feitos de uma mistura de batata cozida e gesso ficam dispostos de forma a representar temas religiosos ou cotidianos. Tipicamente andina, a expressão artística está, desde junho deste ano, reconhecida pelo Estado peruano como Patrimônio Cultural da Nação.

É a partir do dia a dia de trabalho de Noé, então, que somos apresentados à espinha dorsal de Retablo: a relação pai e filho.  

Grande admirador do pai e incentivado pela mãe, Segundo se empenha em torna-se também um mestre artesão. Para isso, o jovem passa os dias acompanhando  todos os processos da confecção dos retábulos. 

Logo de início, a maior preocupação do filme é desenvolver e  nos mostrar o quanto há de parceria e afeto entre Noé e Segundo. Tudo muda, porém, quando o garoto descobre um segredo do pai, o que o obriga a decidir se segue a tradição paterna da arte dos retábulos ou se deixa a família para ir trabalhar com agricultura. 

TRADIÇÃO, CONSERVADORISMO E MASCULINIDADE

Em Retablo, Álvaro Delgado-Aparício confronta o senso comum que entende tradição e conservadorismo como sinônimos.

Ao mesmo tempo que homenageia a principal tradição artística da região centro-sul de seu país, o diretor aborda pautas universais, investigando os padrões compulsórios de masculinidade que definem o comportamento de todo um coletivo de indivíduos. É assim, portanto, que ele estabelece o valor da tradição na riqueza cultural, na diversidade, nas correlações, no cuidado e na solidariedade, e não na conservação irracional de preconceitos e violências. 

‘Retablo’/ Divulgação

O modo de vida andino representado em Retablo é tão cheio de contradições quanto qualquer outro no mundo. Logo, Aparício demonstra pretender tensionar a linha que, numa comunidade, separa preocupação de autoritarismo e barbárie.

Quando o segredo de Noé é revelado, família e comunidade reagem. São essas reações que levam o filme do singelo ao brutal, e depois vive-versa. Estamos, afinal, genuinamente preparados para vivenciar com tolerância a pluralidade característica do coletivo? 

Para além da presença ilustre da atriz Magaly Solier no elenco – protagonista de A Teta Assustada, filme peruano indicado ao Oscar 2010 e vencedor do prêmio de maior prestígio do Festival de Berlim em 2009 -, Retablo conta com uma história potente e emocionante. Não original, mas detentora de contornos muito próprios. 

A produção dialoga com assuntos que certamente já foram abordados em outras obras que tratam de diversidade. A diferença, no entanto, é que, desta vez, e num contexto de pouca tradição do cinema peruano, tais assuntos são discutidos aos pés da Cordilheira. 

Trailer:
(Fonte: Arteplex Filmes/ YouTube)

Ficha Técnica:

Direção: Álvaro Delgado-Aparício

Duração: 1h41

País: Peru, Alemanha, Noruega

Ano: 2019

Elenco: Junior Béjar Roca, Amiel Cayo, Magaly Solie

Gênero: Drama

Distribuição: Arteplex Filmes

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